Praia do Sul, Ericeira — comparação entre a década de 1960 e a atualidade
Bastidores

Da Vila Piscatória
Ao Destino Imobiliário

O que mudou.

Bastidores Pedablios · 2026 · 9 min

Toda a gente à volta de Mafra é saloia. Menos aqui. Há uma palavra para quem nasce na Ericeira, e não é sobre onde a pessoa mora — é sobre de que parte da terra ela veio: do mar, não da terra. E há uma segunda história, menos contada, escondida dentro da primeira: a de como essa gente do mar, sem querer, inventou o negócio que hoje dá nome a esta vila inteira.

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A exceção que ninguém explica bem

No concelho de Mafra inteiro, todas as freguesias partilham a mesma alcunha: saloios. Todas, menos uma. Quem nasce na Ericeira é jagoz — um grupo étnico-geográfico próprio, documentado pelo etnógrafo Leite de Vasconcelos em 1941, gente do mar num concelho inteiro de gente da terra. Não é uma curiosidade de posto de turismo. Continua viva: há quem se apresente como jagoz antes de se apresentar como português.

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A palavra que ninguém resolveu

A origem de "jagoz" ainda divide quem estuda a vila — há quem aponte para o árabe, há quem aponte para França, e há um registo de 1784, nos livros da Misericórdia da Ericeira, de uma mulher já chamada "jagosa". Ninguém fechou o caso. Talvez seja precisamente isso que mantém a palavra viva quase 250 anos depois.

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Quando alugar a casa limpa era o único negócio

Praia do Algodio, Ericeira — casas antigas na arriba
Praia do Algodio, antes conhecida como Praia do Norte — uma das duas praias de banhos da vila.

Em 1927, o Guia de Portugal de Raúl Proença descrevia a Ericeira sem rodeios: terra de pescadores pobres que só conseguiam viver alugando no Verão as suas casas muito limpas aos banhistas. Duas praias faziam esse negócio — a do Norte, hoje Algodio, e a do Sul. Um estudo académico sobre a vila confirma o mesmo pela boca dos próprios: há jagoz que dizem ter vivido, durante anos, exclusivamente da boa vontade dos "forasteiros" de Lisboa.

Não havia development, não havia Alojamento Local, não havia mediação — havia uma família que arrumava a casa em junho e vivia dessa renda até setembro, para aguentar o resto do ano. É a primeira transação imobiliária documentada da Ericeira. Ninguém lhe chamou assim na altura, mas era exatamente isso.

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A praia com nome de baleia que curava gente

Praia do Sul, Ericeira, lotada de barracas de banho, meados do século XX
Praia do Sul em pleno verão — a fila de barracas de banho que definiu décadas de veraneio na vila.

A Praia do Sul não atraía só pela paisagem. Os médicos do início do século XX recomendavam-na pelo elevado teor de iodo da água, e mesmo ao lado ficavam as águas minero-medicinais das Termas de Santa Marta, indicadas para doenças de pele e de estômago. A vila vendia saúde antes de vender férias — a "burguesia" de Lisboa vinha primeiro por receita médica, só depois por gosto.

Tem ainda um nome alternativo que quase ninguém usa hoje: Praia da Baleia, porque em 1800 deu à costa ali um cetáceo gigante. Uma praia batizada por um acidente e recomendada por médicos — antes de ser recomendada por ninguém no Instagram.

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O chalé que virou hotel

Chalé Ulrich, moradia de férias na arriba norte da Praia do Sul, Ericeira
A moradia de férias do banqueiro João Ulrich, construída na arriba norte da Praia do Sul, junto às nascentes de água mineral.

No início do século XX, o banqueiro João Ulrich construiu a sua casa de férias na arriba norte da Praia do Sul, mesmo junto às nascentes de água mineral. Foi nessa casa que se instalou, em 1943, o primeiro Hotel de Turismo da Ericeira — 16 quartos, por arrendamento da Sociedade Turística das Praias de Portugal.

Mas a história continua: em 1956, Raúl Duarte Gomes, filho do dono de uma das mais antigas hospedarias da vila, comprou a moradia e construiu ali um hotel novo — 50 quartos, campo de ténis, praia privativa, um bar dançante chamado "O Pirata", único no género no país inteiro. Só depois de o hotel novo estar de pé é que se demoliu o resto da casa original. Hoje esse edifício é o Vila Galé Ericeira, o hotel de 4 estrelas mais ocidental da Europa.

Uma casa de família, num século, tornou-se hotel de luxo — e continua hotel de luxo. E não foi coincidência que a vila desenvolvesse este hábito: desde Eça de Queirós e Ramalho Ortigão que a Ericeira tinha fama de destino de verão entre a elite literária de Lisboa.

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O homem que avisava o mar

Postal antigo O Tio Victorino, Ericeira, 1904
"Recordação da Praia da Ericeira — O Tio Victorino", postal de 1904.

Antes de qualquer carta náutica moderna, havia um homem no muro das arribas, com um barrete na mão, a dizer aos pescadores quando o mar deixava entrar os barcos em segurança. Victorino Dias, "o Cachafana", nasceu na Ericeira em 1833 e é um dos sinaleiros mais lembrados da vila — também pregoeiro, "um jornal vivo" que anunciava a lota e avisava de objetos perdidos pelas ruas.

O postal de recordação de 1904 que sobrevive com o seu nome é, quase de certeza, este mesmo homem, já na velhice, transformado em símbolo da Ericeira inteira. Não era decoração de postal turístico — era um ofício que literalmente salvava vidas.

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A força que puxava os barcos

Bois a puxar um barco de pesca na areia, Ericeira
Antes dos tratores e das gruas do porto, bois puxavam os barcos areia acima, todos os dias.

Não era pitoresco na altura — era o único método que existia. Um homem à frente, a guiar pelo chifre, e o barco a subir a areia devagar, puxado por juntas de bois, até estar em segurança longe da maré.

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A voz que se ouvia antes de se ver

Bernardina, vendedora de bolas de Berlim na praia, Ericeira
A Bernardina, vendedora de bolas de Berlim e batata frita — presença fixa de cada verão.

Quem cresceu na Ericeira nos anos 60 e 70 lembra-se da voz da Bernardina antes de a ver — cesto ao lado, a percorrer a praia a vender. Ainda hoje aparece nas conversas de quem é da terra, décadas depois de ter parado de vender.

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A casa que nunca fechou

Fachada da discoteca Ouriço, Ericeira
A fachada muda de tema todos os anos — mas o ouriço, e a casa, ficam.

Enquanto tudo à sua volta mudava de nome e de dono, há uma casa na Ericeira que nunca fechou: a discoteca Ouriço, fundada em agosto de 1960, na Rua Capitão João Lopes, sobranceira à Praia dos Pescadores — considerada a mais antiga discoteca da Península Ibérica em funcionamento contínuo. Todos os anos, no aniversário, muda o tema da fachada. O DJ mais antigo do país ainda toca lá. Três gerações da mesma família já dançaram dentro das mesmas paredes.

Primeiro alugavam a casa limpa a quem vinha para curar-se. Depois construíram um hotel onde era a casa de um banqueiro. O negócio mudou de nome várias vezes. Nunca mudou de sítio.

A Ericeira não decidiu um dia tornar-se destino imobiliário. Foi sempre isso, só que sem o nome — desde a família que arrumava a casa em junho até ao chalé que virou hotel de cinco estrelas. A pergunta não é se a vila mudou. É se ainda há alguém que se lembra da Bernardina, do Tio Victorino, ou de quem puxava os barcos com bois. Se souberes, conta-nos.

Passado a Limpo. Fred em campo, arquivo por perto.

Quem conhece a história da vila, conhece o mercado da vila.